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“O Beijo no Asfalto” estreia dia 18, no Sesc Santo André, e propõe conexão com a atualidade

Clássico da dramaturgia nacional, tragédia carioca de Nelson Rodrigues tem agora encenação de Bruno Perillo e propõe reflexão, discernimento, empatia e sensibilidade

Ambientada num Rio de Janeiro de 60 anos atrás, a peça “O Beijo no Asfalto”, verdadeiro clássico escrito por Nelson Rodrigues (1912-1980), chega ao teatro do Sesc Santo André, no próximo dia 18, mais atual do que nunca. Sob a direção de Bruno Perillo, coloca em cena questões como moral, ética e a relação do homem com seu meio, no melhor estilo do universo rodrigueano, porém, explorando as razões para a obra seguir impactante ainda hoje.

Em plena Praça da Bandeira, um homem é atropelado e cai no asfalto. Na sua agonia, pede um beijo a outro homem, Arandir (o ator Anderson Negreiros) que corre em seu auxílio. A partir daí a tragédia se desenrola e o autor desmascara, com visceralidade, as raízes da sociedade brasileira, suas características, vícios e estigmas mais profundos. O beijo acontece, o atropelado morre e a multidão testemunha. Tudo vira notícia e o protagonista passa de mera testemunha de um acidente a acusado de um crime.

Para o diretor, Arandir catalisa em si tudo o que resta de vida humana, em seu sentido simbólico mais poético e fraterno possível. “A grande desgraça que se abate sobre o personagem, após o beijo na boca de um homem atropelado e prestes a morrer, talvez seja a intromissão e a usurpação, em sua intimidade mais profunda, de uma alienação e de uma ignorância tóxicas endêmicas, que se originam nos mais antigos resquícios da nossa fundação de país. A devastação de sua privacidade é a consequência direta de sua condenação. Um beijo entre dois homens, no meio da rua, diante da bandeira nacional, é atitude pública inadmissível. O pequeno ato de Arandir, simples e singelo, mas indubitavelmente raro e belo, é um gigantesco ato de resistência”, analisa Perillo.

Em que momento passamos a ser regidos pelas “notícias” e opiniões ao redor? Em que lugar ficou a nossa capacidade de reflexão e discernimento, de empatia e sensibilidade? São questões que a nova leitura da obra quer despertar. “O nosso mundo só lê manchetes. As manchetes são basicamente aquilo que o nosso mundo é, no aqui e no agora do hoje. Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp e afins são gigantes canalizadores e reprodutores de manchetes e das mais infinitas opiniões”, compara o diretor, em plena era dos fatos e fakes.

A base da montagem, segundo Perillo, está na agilidade do texto e na força dos diálogos. Em benefício da eficiência narrativa, optou-se pela simplicidade estética. O elenco permanece o tempo todo no palco, não necessariamente no foco da cena, mas compondo imagens em relação ao foco. “Trabalhamos no sentido de conceber um campo simbólico para todo o desenrolar da trama, como se tudo ocorresse num espaço público. Os objetos cênicos irão assumir diversas posições e funções ao longo da montagem”, explica.

A escolha de um ator negro para o papel de Arandir traz instantaneamente novas camadas de conexões, arrastando junto uma história de 500 anos de um Brasil repleto de contradições inexoráveis em sua fragilíssima identidade. O espetáculo – escrito em 1960 a pedido da atriz Fernanda Montenegro – conta no elenco, além de Negreiros, com os atores Angela Ribeiro, Heitor Goldflus, Lucas Lentini, Mauro Schames, Natalia Gonsales, Rita Pisano, Roberto Audio e Valdir Rivaben.

“A encenação realiza uma radiografia do texto e tentar extrair sua essência para investigar, com um olhar aprofundado, as raízes dos acontecimentos que se abatem sobre os personagens e as suas questões mais relevantes para o Brasil de hoje”, conclui o diretor.

SERVIÇO – O Beijo no Asfalto

Sinopse: A notícia de que um homem beijou outro homem na boca, no meio da rua, no centro da grande cidade, é o suficiente para servir de célula para disseminar uma tragédia

Texto: Nelson Rodrigues

Direção: Bruno Perillo

Estreia: 18 de outubro, às 21h, no Teatro do Sesc Santo André (rua Tamarutaca, 302, Vila Guiomar / 302 lugares) / Temporada até 10 de novembro – sextas, às 21h, sábados, às 20h, e domingos, às 19h

Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia: estudante, servidor de escola pública, maiores de 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência); R$ 9,00 (credencial Sesc)

Realização: Sesc SP

Duração: 80 minutos

Recomendação: maiores de 14 anos

Informações: (11) 4469-1200

(Foto: Leekyung Kim / Divulgação)

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