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São Bernardo: esquema criminoso teria começado em 2022

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MPSP denunciou formalmente o prefeito afastado Marcelo Lima; PGJ quer perda definitiva do mandato e ressarcimento aos cofres públicos

Ao denunciar formalmente à Justiça o prefeito afastado de São Bernardo do Campo, Marcelo Lima (Podemos), por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, nesta segunda-feira (18), o Ministério Público de São Paulo (MPSP) apontou que o esquema teve início em 2022, sustentado na obtenção de contratos públicos e no desvio de recursos por meio de empresas que mantêm vínculos formais com a Prefeitura. Outras nove pessoas são citadas na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ), entre elas o presidente da Câmara, Danilo Lima (Podemos), e o assessor parlamentar Paulo Iran Paulino Costa, apontado como operador das propinas.

O prefeito é apontado como figura central da organização criminosa criada para desviar recursos da Prefeitura e “emerge como o eixo articulador, exercendo um papel de influência direta sobre as movimentações financeiras ilícitas”, cita um trecho da denúncia. “Marcelo Lima não era um mero beneficiário passivo. Ele exerce um papel de comando e possui domínio finalístico sobre o fluxo de recursos e a contabilidade informal do esquema. As provas demonstram que ele participava ativamente da gestão do esquema, ditando as regras e o fluxo de valores”, afirma o Ministério Público.

A denúncia é assinada pelo procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa. Ele atribui ao grupo participação em um esquema de desvio de recursos em contratos de diversas áreas, como saúde, obras e coleta de lixo, que teriam sido fraudados, segundo o inquérito.

Marcelo Lima foi afastado do cargo na semana passada na Operação Estafeta, da Polícia Federal. Em caso de condenação as penas dos acusados podem chegar a até 8 anos de prisão. O MP ainda pede ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) a prisão dos envolvidos, além da perda definitiva dos mandatos e a devolução de R$ 16,9 milhões aos cofres municipais.

Entenda

As investigações começaram em julho de 2025 quando, apenas no apartamento de Paulo Iran, ocorreu a apreensão de R$ 14 milhões em espécie. Antes de ter a prisão preventiva decretada, ele trabalhava como funcionário comissionado no gabinete do deputado Rodrigo Moraes (PL), na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

A indicação do assessor ao parlamentar do PL teria ocorrido por influência do prefeito de São Bernardo, de acordo com a Polícia Federal. A primeira-dama, Rosângela dos Santos Lima Fernandes, conhecida como Zana, também foi funcionária do gabinete de Moraes. Além de Paulo Iran, a PF apreendeu dinheiro com empresários suspeitos de pagar propinas a Marcelo Lima.

O operador do esquema criminoso recebia as propinas pagas por empresários em troca de contratos com a administração municipal. Ainda de acordo com a investigação, esse dinheiro era usado para pagar despesas pessoais do prefeito e da família dele. Entre os gastos estão faturas de cartão de crédito, passagens aéreas, boletos e a mensalidade da faculdade de Medicina de uma das filhas do casal, Gabrielle Lima Fernandes.

Para o Ministério Público, as informações obtidas em anotações, computadores e celulares apreendidos com Paulo Iran são cruciais e revelam conversas com Marcelo Lima desde julho de 2022, quando ele ainda não era prefeito. Entre as mensagens constam: “Tudo entra na tua conta agora”; “Vai guardando”; “Anote tudo para posterior acerto”; “Manda aquela lista do que tem para entrar para mim”, “A conta de água você já pagou?”, “Mande 5 (R$ 5.000,00) para a Zana”.

A Prefeitura de São Bernardo do Campo informou que vai colaborar com as investigações e que o episódio não afeta os serviços na cidade.

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Alvo de mandado de busca, dono de empresa de terraplanagem teve quase R$ 2 milhões apreendidos em sua casa (Foto: PF)

Saiba quem são os outros alvos da operação

  • Antonio Rene da Silva Chagas — Diretor de departamento na Secretaria de Coordenação Governamental de São Bernardo do Campo (preso por mandado judicial). Conhecido como “Renegade”, o servidor atuava com Paulo Iran na divisão do dinheiro que seria entregue para os beneficiários do esquema em mochilas e caixas de papelão.
  • Fabio Augusto do Prado — Secretário de Coordenação Governamental de São Bernardo. Tinha os apelidos de “Fabio Campanha” e “Sacolão” dentro do esquema e teria sido flagrado em conversas de WhatsApp com os operadores das propinas.
  • Roque Araújo Neto — Assessor parlamentar da deputada estadual Carla Morando (PSDB), ex-primeira dama de São Bernardo, também é apontado como operador do esquema. Um crédito de R$ 390 mil o ligava ao caixa clandestino de Paulo Iran.
  • Felipe Rafael Pereira Fabbri e Caio Henrique Pereira Fabbri — Sócios da Quality Medical Comércio e Distribuidora de Medicamentos. Nas anotações de Paulo Iran, a empresa é associada a valores expressivos, que somam pelo menos R$ 660 mil.
  • Luís Roberto Peralta e Leonardo Agnello Pegoraro — Sócios do Consórcio São Bernardo Soluções. São alvo de mandados de busca por anotações relacionando a empresa a pagamentos de pelo menos R$ 174 mil.
  • Murilo Batista de Carvalho — Sócio da Ballarin Imóveis. Embora a empresa não preste serviço para a Prefeitura, Murilo foi alvo de mandado de busca por estar associado às anotações encontradas com Paulo Iran.
  • Edmilson de Deus Carvalho — Sócio da Terraplanagem Alzira Franco. Apesar da empresa também não possuir contrato com a administração municipal, Edmilson teve conversas com Paulo Iran em 2024 e estaria associado à movimentação de R$ 30 mil.
  • Danilo Lima — Vereador e presidente afastado da Câmara, o primo do prefeito Marcelo Lima é mencionado em conversas entre Paulo Iran e Fabio Augusto referentes a recebimentos e indicações de depósito. Nesta segunda-feira (18), em primeira manifestação após ser afastado do cargo, ele afirmou estar tranquilo e confiar na Justiça.
  • Ary Oliveira — Suplente de vereador pelo PRTB, também aparece em conversas dos operadores do esquema criminoso, inclusive com valores associados ao seu nome. Em sua defesa, ele diz desconhecer o motivo de seu nome ter sido citado nas investigações e que segue à disposição das autoridades.
  • Paulo Sérgio Guidetti — Ex-secretário de Administração e atual servidor municipal de São Bernardo do Campo, é mais um que aparece em mensagens trocadas por Paulo Iran.

Presos em flagrante, os empresários Caio Henrique Pereira Fabbri e Edmilson de Deus Carvalho já estão entre os denunciados nesta primeira acusação formal da Procuradoria-Geral de Justiça. Com eles foram apreendidos mais de R$ 3 milhões em espécie na Operação Estafeta. Os investigadores acreditam que há mais empresários envolvidos nos desvios.

CPI e impeachment

A Câmara Municipal de São Bernardo realizou, nesta terça-feira (19), a primeira sessão ordinária após a investigação que revelou o esquema de desvio de dinheiro público na cidade. Agora sob a presidência da vereadora Ana Nice (PT), a Casa teve pedido de abertura de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar as suspeitas de corrupção na Prefeitura e de suspensão dos salários dos vereadores afastados, Danilo Lima e Ary de Oliveira.

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Na primeira sessão após o escândalo, vereadores discutem CPI e suspensão de salários de investigados; enquanto pedido de impeachment tramita na Câmara (Reprodução: TV Globo)

O requerimento para que os salários dos parlamentares afastados, no valor de R$ 19.960,05, sejam suspensos, foi protocolado pelos vereadores João Viana (Cidadania), Shell Gomes (Cidadania) e Luana Eloá (MDB), que também pedem acesso aos contratos investigados pela Polícia Federal. Já o pedido de CPI partiu do líder do governo, Julinho Fuzari (Cidadania), e soma 19 assinaturas.

Um pedido de impeachment do prefeito foi protocolado na Câmara pelo PSOL na quinta-feira (14), mesmo dia em que ele foi alvo da Operação Estafeta. O município, que celebra 472 anos nesta quarta-feira (20), tem como prefeita em exercício Jéssica Cormick (Avante), eleita vice na chapa com Marcelo Lima, em 2024.

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