
Funcionário do gabinete da deputada estadual, casada com o ex-prefeito Orlando Morando, é um dos investigados pela Operação Estafeta
Entre os alvos da Operação Estafeta, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (14) em São Bernardo do Campo, está Roque Araújo Neto, assessor parlamentar da deputada estadual Carla Morando (PSDB). A ação resultou no afastamento do prefeito Marcelo Lima (Podemos), também presidente do Consórcio Intermunicipal Grande ABC. Ele ainda terá que usar tornozeleira eletrônica, está proibido de sair à noite e nos finais de semana. Saiba mais aqui.
Além do chefe do Executivo, a operação investiga outros nomes ligados à política local, como o presidente da Câmara, Danilo Lima (Podemos), o suplente de vereador Ary de Oliveira (PRTB) e o assessor parlamentar Paulo Iran Paulino Costa, com quem foram apreendidos R$ 14 milhões e US$ 500 mil, tudo em espécie, em julho. Funcionário comissionado do gabinete do deputado estadual Rodrigo Moraes (PL), ele é apontado como o operador de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro oriundo do pagamento de propinas envolvendo contratos públicos das secretarias de Obras e Saúde (leia mais abaixo).
O assessor de Carla Morando tinha salário bruto de R$ 8.292,95 na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e é suspeito de ter recebido R$ 390 mil de propina. O nome dele, que também já foi assessor parlamentar na Câmara Municipal de São Bernardo, é citado no relatório da PF como um dos que foram pagos diretamente pelo operador do esquema criminoso, Paulo Iran.
“Precisamos aguardar a apuração dos fatos para, aí sim, deliberar sobre o que iremos fazer. A gente precisa logo das informações porque a deputada estadual e ex-primeira dama da nossa cidade exonerou um assessor dela citado na operação, e ficam algumas perguntas. Qual a origem desses contratos que estão sob investigação de superfaturamento? São contratos novos ou que já vinham da gestão anterior? Não me recordo de nenhum contrato vultuoso feito nesses últimos oito meses”, disse o líder do governo na Câmara de São Bernardo, Julinho Fuzari (Cidadania), após os fatos virem à tona.
Devido à grande repercussão na política regional – e nacional -, Carla Morando, esposa do ex-prefeito de São Bernardo e atual secretário de Segurança Urbana da Capital, Orlando Morando (sem partido), decidiu se manifestar. Embora não seja formalmente acusada no inquérito, autorizado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), a deputada foi motivada pela citação do agente político próximo.
Ela afirmou ter sido surpreendida ao ver o nome de seu assessor mencionado na ação da PF e que, assim que tomou conhecimento dos fatos, determinou a exoneração do servidor. “A deputada confia na apuração da Justiça e, caso seja comprovado o envolvimento, que o responsável seja punido com o rigor da lei”, mencinava a nota que chegou a ser postada nas redes sociais da parlamentar, mas apagada em seguida.
Outros citados nas investigações

O suplente de vereador Ary de Oliveira e o então candidato a prefeto Marcelo Lima durante a campanha eleitoral de 2024
Ary de Oliveira, veterano da política são-bernardense, foi o primeiro a se pronunciar sobre a Operação Estafeta, que apura a participação de servidores e agentes públicos na suposta intermediação irregular de serviços e no recebimento de vantagens ilícitas. O parlamentar, que foi surpreendido com a visita de policiais federais com mandado de busca e apreensão em sua casa, diz desconhecer o motivo de seu nome ter sido citado, que não há provas contra ele, até o momento, e que segue à disposição das autoridades.

R$ 14 milhões encontrados com o assessor parlamentar Paulo Iran, que está foragido, o ligam com o prefeito de SBC
Além de Marcelo Lima, a Justiça decidiu afastar Danilo Lima, primo do prefeito e presidente da Câmara de São Bernardo do Campo. Vereador mais votado nas eleições de 2024 (com 9.853 votos), ele é acusado pela Polícia Federal de receber “altas quantias em dinheiro” de Paulo Iran, servidor da Alesp, dentro do esquema que envolve suposta organização criminosa em autação na administração do município e indícios de corrupção, pagamento de propinas e lavagem de dinheiro.
Os policiais federais interceptaram mensagens trocadas entre Danilo e Paulo Iran. O teor das conversas indica que o primo do prefeito teria recebido várias remessas de dinheiro vivo dentro do prédio do Legislativo, além de transferências bancárias. Os dois ainda combinaram a entrega de R$ 60 mil em espécie para Marcelo, em julho de 2024, quando ele já estava em campanha eleitoral.
Investigado desde 2022, Paulo Iran pagava até a mensalidade da faculdade da filha de Marcelo Lima, Gabrielle Lima Fernandes, beneficiária do auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19, quando o pai era vice de Morando – cargo que deixou para se candidatar a deputado federal. A atual primeira-dama de São Bernardo, Rosangela Lima, trabalhou até novembro de 2024 no gabinete do deputado Rodrigo Moraes, do PL, o mesmo onde Paulo Iran – que está foragido e com mandado de prisão preventiva decretado – atua desde 2022.

O prefeito Marcelo Lima e Danilo Lima, seu primo e presidente da Câmara; ambos afastados de suas funções
A residência do primo do prefeito também foi alvo de busca e apreensão na manhã desta quinta-feira e Danilo Lima teve o sigilo bancário quebrado. O desembargador Roberto Porto, da 4ª Câmara Criminal do TJ-SP, determinou a perda de suas funções na Câmara Municipal.
Vereador em segundo mandato, ele já havia sido presidente da Câmara entre 2021 e 2024, durante a gestão do ex-prefeito Morando. Na época, os dois estavam no PSDB. A atual vice-presidente do Legislativo, Ana Nice (PT), deve assumir a presidência da Casa.
Outros alvos da operação são Fábio Augusto do Prado, secretário de Coordenação Governamental de São Bernardo; Antônio Rene Silva Chagas, diretor de departamento na Secretaria de Coordenação Governamental (preso por mandado judicial); Edmilson Carvalho, sócio da Terraplanagem Alzira Franco Ltda. (preso em flagrante com R$ 400 mil em casa); e Paulo Henrique Pereira Fabbri, sócio da Quality Medical (preso em flagrante).
A Prefeitura de São Bernardo do Campo, por meio de nota, revelou estar colaborando com as investigações. Presidente nacional do Podemos, a deputada federal Renata Abreu, disse “acreditar na lisura do prefeito Marcelo Lima”.
Nova prefeita

Em seu primeiro cargo público eletivo, Jessica Cormick, do Avante, assume desafio de comandar a Prefeitura de São Bernardo do Campo
Com o afastamento do prefeito, Jessica Cormick (Avante) assume o comando do Paço Municipal de São Bernardo, maior cidade do Grande ABC, com 810.729 habitantes, e uma das mais importantes do Estado. Sargento da Polícia Militar desde 2005, ela se afastou da corporação no ano passado para ser candidata a vice de Marcelo Lima.
Nascida em São Sebastião (SP), Jéssica tem 39 anos e é a primeira vez que assume um cargo público eletivo na vida. Atualmente, ela faz um curso de MBA em administração pública.
Casada com o também sargento da PM Eder Munhoz, que conheceu durante o trabalho no 6° Batalhão da Polícia Militar da cidade, a vice-prefeita é mãe de Rafaella, nascida em 2013. Jessica foi escolhida para compor chapa com Lima num aceno aos eleitores bolsonaristas de São Bernardo.
No final da tarde, o deputado federal Alex Manente (Cidadania), derrotado por Marcelo Lima no segundo turno, afirmou lamentar o escândalo envolvendo o nome da cidade e que apoia as investigações. Ele se colocou à disposição do mandato de Jessica Cormick, que agora assume a Prefeitura.
(Este texto foi atualizado)
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