Delegado executado já foi vítima de assalto à mão armada em Praia Grande

Ruy Ferraz Fontes e a esposa foram abordados por bandidos em 2023 após saírem de restaurante; polícia paulista investiga o atentado da última segunda (15)
O delegado aposentado da Polícia Civil Ruy Ferraz Fontes, executado no início da noite da última segunda-feira (15) por criminosos ao sair da Prefeitura de Praia Grande, já havia sofrido um assalto à mão armada na cidade do litoral paulista em dezembro de 2023. Os dois assaltantes, ambos de 21 anos, acabaram presos na ocasião por agentes da GCM (Guarda Civil Municipal).
Fontes e a esposa tinham acabado de sair de um restaurante e voltavam de moto para casa, no bairro Canto do Forte, área nobre de Praia Grande. Ao se dirigir à garagem, o casal foi abordado pela dupla, que também estava em uma motocicleta.
Fontes levantou os braços em sinal de rendição e um dos criminosos apontou a arma para a cabeça dele, enquanto o comparsa checou os bolsos da mulher, pegou uma jóia do pescoço dela e fugiu. Em seguida, o ladrão armado roubou um cordão do pescoço de Fontes e levou a moto do ex-delegado-geral da Polícia Civil do Estado.
Ao serem detidos em flagrante, na Rua Ântonio Cardoso Ferreira, no bairro Anhanguera, os dois confessaram o crime e foram identificados pelas vítimas. Fontes e a esposa recuperaram a moto, além de cartões, celulares e outros bens roubados.
Desde 2023 morando em Praia Grande, devido ao cargo de secretário de Administração na Prefeitura, Fontes tinha residência em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde a mulher costumava ficar. Enquanto estava na cidade da Baixada Santista, o ex-delegado não andava de carro blindado – algo que fazia apenas quando se dirigia ao Grande ABC ou à Capital.
Ruy Ferraz Fontes foi executado por criminosos na Avenida Dr. Roberto de Almeida Vinhas, paralela à via Expressa Sul, no bairro Nova Mirim. Câmeras de monitoramento registraram os momentos que antecederam o atentado e a própria execução do secretário municipal de Administração.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) acredita que pelo menos seis criminosos tenham participado do ataque da última segunda-feira. Do carro que perseguiu Fontes desceram três bandidos fortemente armados com fuzis e coletes à prova de balas, enquanto um quarto homem ficou na direção do veículo.

Vídeo mostra dinâmica do atentato que matou o ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo (Foto: Reprodução)
O carro usado na ação, uma Hilux preta, foi incendiado cerca de dois quilômetros de distância, numa tentativa de eliminar provas, mas não conseguiram atear fogo em outro veículo, um Jeep Renegade, que teria dado cobertura aos executores do crime, e foi encontrado ligado no Jardim Quietude. Munições e objetos esquecidos pelos bandidos no interior do automóvel, além de impressões digitais, permitiram a identificação de dois suspeitos, cujos nomes não foram revelados. Eles tiveram a prisão temporária decretada e estão sendo procurados pela polícia.
Um dos homens tem, pelo menos, quatro passagens pelo sistema prisional da Baixada Santista e seria ligado ao crime organizado. Pela habilidade dos bandidos ao manusear armas de alto calibre – usando máscaras, luvas e coletes à prova de balas -, além de toda a logística da ação criminosa, não estaria descartada a atuação de policiais militares aliciados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital).

Ao longo de sua carreira na polícia, Ruy Ferraz Fontes notabilizou-se por enfrentar os líderes da facção criminosa PCC
Em 2019, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou uma lista de execução de integrantes da Polícia Civil determinada por Marcos Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. O então delegado era um deles.
Durante mais de 40 anos na polícia, Fontes era considerado um especialista em PCC e inimigo número 1 da facção criminosa. Ele ganhou notoriedade ao mapear o Primeiro Comando da Capital e determinar ações para enfraquecê-lo, incluindo a transferência de seus líderes para presídios federais de segurança máxima, em 2006.
Temia pela própria segurança
No dia 25 de agosto, o ex-delegado-geral de São Paulo, assassinado aos 63 anos, chegou a afirmar temer por sua segurança durante gravação de um podcast em produção pela rádio CBN e pelo jornal O Globo. Na entrevista, ele disse que estava “sozinho” na cidade de Praia Grande e que não contava com nenhuma proteção do Estado.
Durante a conversa, Fontes demonstrou preocupação com o fato de viver na Baixada Santista, região conhecida por ser um reduto Primeiro Comando da Capital. “Eu tenho proteção de quem? Eu moro sozinho, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é no meio deles. Pra mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu tava pouco me importando, teria estrutura para me defender, hoje não tenho estrutura nenhuma”, declarou.
Na mesma conversa, ele afirmou que, nos mais de 40 anos de Polícia Civil, nunca recebeu ameaças do crime organizado. “Teve uma conversa só meio atrapalhada com o Marcola, mas nunca teve um desenrolar negativo. No mundo do crime, existe uma ética. E essa ética é cobrada, de uma forma geral. Em que momento nós instruímos um inquérito policial e inventamos alguma prova contra eles? Nunca. Se tinha provas, a gente relacionava e depois ia depor em juízo. A gente não inventou provas. Se ele é criminoso e pratica crime, eu sou da polícia e investigo. Então não gera um descompasso pessoal em relação a quem investiga.”
Investigação
Uma megaoperação integrada das polícias Civil e Militar está em andamento em Praia Grande desde que ocorreu o atentado. Mais de 100 homens das forças estaduais de segurança, inclusive da elite das polícias, estão na Baixada Santista.
Equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Departamento de Investigações Criminais (Deic), Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope), Corpo Especial de Repressão ao Crime Organizado (Cerco) e do Deinter 6 (Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior) estão em diligências contínuas na região com apoio de batalhões da Polícia Militar, incluindo o Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) de Santos e equipes da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).
O caso foi registrado junto à Delegacia de Investigações Gerais (Dig) de Praia Grande e está sendo investigado pelo DHPP, com apoio dos demais departamentos. O Governo de São Paulo recusou ajuda da Polícia Federal nas investigações.
Na manhã desta quarta-feira (17), a mãe e o irmão de um dos suspeitos identificados pelas autoridades prestaram depoimento na sede do DHPP, em São Paulo. O conteúdo não foi revelado, mas eles teriam dito desconhecer o paradeiro do familiar.
Já no início da noite, a Polícia Civil pediu a prisão de uma mulher suspeita de transportar um dos fuzis usados na execução do delegado aposentado para Diadema, no GrandeABC. Ela seria namorada de um dos suspeitos foragidos e começou a prestar depoimento no DHPP no final da tarde.
Motivações
Embora uma das hipóteses para o assassinato seja o histórico de Ruy Ferraz Fontes contra o PCC, o secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite, não descarta a atuação dele na Prefeitura Municipal de Praia Grande como motivação para o ataque – que já estaria sendo estudado há pelo menos cinco meses, quando os dois veículos utilizados na ação foram roubados na Capital e passaram a circular no litoral.
À frente da Secretaria de Administração da Prefeitura desde 2023, quando a prefeita era Raquel Chini (Republicanos), Fontes pode ter adquirido desafetos ao lidar com contratos e licitações em andamento, além de ter desagradado comerciantes, numa tentativa de disciplinar o funcionamento de alguns estabelecimentos, principalmente na região da orla, e empresários do setor imobiliário de Praia Grande, um dos mercados de atuação do crime organizado.
Em entrevistas, o atual prefeito da cidade, Alberto Mourão (MDB), disse que Fontes era um homem reservado, que não falava sobre sua vida pessoal. O chefe do Executivo, que lamentou a morte do secretário, contou ainda que ele costumava andar armado e confirmou que o ex-delegado só usava o carro blindado para ir a São Paulo.
Para Mourão, os assassinos tinham informações privilegiadas sobre a rotina de Fontes. Ele, no entanto, descarta que o atentado tenha relação com o cargo do ex-delegado na administração municipal, cujo trabalho, segundo o prefeito, seria apenas burocrático, voltado a compras, recursos humanos e questões patrimoniais.
Outros ataques
Além do assalto ao lado da esposa, no Canto do Forte, o ex-delegado executado a tiros em Praia Grande foi alvo de outros ataques no decorrer de sua trajetória. Em alguns episódios, Ruy Ferraz Fontes chegou a reagir e a perseguir os criminosos.
Em 2010, foi descoberto um plano do PCC para assasiná-lo na saída do 69º Distrito Policial, na Zona Leste de São Paulo, onde ele trabalhava. O plano frustrado terminou com a prisão de Aurilio da Silva de Melo, o XT, com quem os PMs encontraram pistola, fuzil, carregadores e munições.
Dois anos depois, quando era delegado na Zona Sul da capital paulista, Fontes foi surpreendido por dois criminosos em uma moto enquanto guiava uma motocicleta pela Rodovia Anchieta. Na ocasião, ele estava acompanhado de uma investigadora da Polícia Civil, que foi baleada, mas socorrida.
Na troca de tiros, um dos bandidos morreu e o outro foi socorrido ferido. O delegado, que atingiu os dois homens, não ficou ferido.
Em 2020, já como delegado-geral da Polícia Civil, nomeado pelo ex-governador João Doria, então no PSDB, Fontes foi vítima de uma tentativa de assalto, no bairro paulistano do Ipiranga, enquanto voltava para casa sozinho do trabalho. O carro em que estava foi atingido por dois disparos e ele reagiu. Baleado, o suspeito fugiu.
Em 2022, dois homens em uma moto tentaram assaltá-lo na Avenida do Estado, na Capital. Na época, ele era diretor do Dope e estava dirigindo quando foi abordado. Fontes perseguiu os bandidos até fechar a motocicleta e houve tiroteio, mas os criminosos fugiram.
Já aposentado, Fontes foi morar em Praia Grande devido ao trabalho na Prefeitura, mas manteve residência na região do ABC. No dia 16 de dezembro de 2023, ele e a mulher foram assaltados no Canto do Forte. Os GCMs chegaram aos criminosos após a moto utilizada por eles ser identificada pelo sistema de monitoramento da cidade.

Saiba quem era Ruy Ferraz Fontes, delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, de 2019 a 2022, e secretário de Administração de Praia Grande desde 2023
Perfil
Ruy Ferraz Fontes era graduado pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (SP) e pós graduado em Direito Civil pela mesma instituição. Delegado de polícia por mais de 40 anos, se especializou em Administração Geral e Financeira em Órgãos Públicos e participou de cursos complementrares como o Curso Anti-Drogas e Anti-Terrorismo, realizado pelo Ministério do Interior e da Segurança Pública da Polícia Nacional da França; e o Curso de Aperfeiçoamento sobre Repressão às Drogas, em Vancouver, pela Polícia Montada do Canadá.
Iniciou a carreira como delegado titular da Delegacia de Polícia de Taguaí (Deinter 7), no interior paulista. Ao longo dos anos, foi delegado assistente da equipe da Divisão de Homicídios do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP); delegado titular da 1ª Delegacia de Polícia da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc); delegado titular da 5ª Delegacia de Polícia de Investigações Sobre Furtos e Roubos a Bancos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
Justamente enquanto esteve à frente da Delegacia de Roubo a Bancos do Deic, ganhou notoriedade por ser o primeiro delegado a investigar a atuação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele ainda comandou outras delegacias e divisões na Capital.
Também esteve à frente da Delegacia Geral de Polícia do Estado de São Paulo e foi diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap). Ainda foi professor assistente de Criminologia e Direito Processual Penal do Centro Universitário Anhanguera e professor de Investigação Policial da Academia da Polícia Civil do Estado de São Paulo.
Ruy Fontes assumiu a Secretaria de Administração de Praia Grande em janeiro de 2023, permanecendo na gestão que se iniciou em 2025.

Corpo de ex-delegado-geral executado em Praia Grande por volta das 18h20 da última segunda-feira (15) foi velado na Alesp (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
O corpo do ex-delegado foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e sepultado no Cemitério da Paz, no bairro do Morumbi, na Capital, nesta terça-feira (16). Ele não tinha filhos.
(Este texto foi atualizado)
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